O melhor hedge possível também é a melhor oportunidade de investimento?

A incessante busca por oportunidades é o que nos motiva. Estamos sempre procurando investimentos assimétricos, nos quais a chance de perder seja pequena e, se materializada, não nos impacte muito, e em que, por outro lado, a chance de acertar seja alta e, se materializada, nos gere ganhos exponenciais. Não é segredo para ninguém que nossa maior tese de investimento na atualidade é o urânio. Estamos há mais de dois anos inseridos nesse mercado, buscando entender a dinâmica do setor, os participantes e seus interesses, e todo tipo de informação que nos ajude a buscar os melhores retornos com o menor risco. Recentemente eu participei da maior conferência de urânio do planeta, novamente como palestrante, e gostaria de dividir com vocês um dos pontos principais da minha palestra, que foi justamente o fato do urânio poder ser o melhor hedge possível para o investidor, protegendo o patrimônio ao mesmo tempo em que diminui a volatilidade dos portfólios. O bear market do urânio teve início em 2011, após o acidente de Fukushhima, e durou até 2017, quando a Cameco anunciou que suspenderia a produção da maior mina do mundo, a de McArthur River, no Canadá. Ao longo desses anos, o preço de praticamente tudo subiu, como de imóveis, ações, bonds, criptomoedas e arte.  Em 2018, os mercados em geral tiveram forte realizações, com quedas muito acentuadas, principalmente nos últimos meses do ano. Quase todos os ativos caíram, enquanto o urânio subia 30%. Em 2019, após a capitulação do Fed, os mercados voltaram a subir, ao mesmo tempo em que o urânio caia. Veio 2020 e tivemos o crash mais rápido da história, quando os índices acionários do mundo inteiro despencaram, juntamente com o preço de quase todos os ativos – até mesmo o ouro, considerado o porto seguro, caiu de preço no ápice da crise. Eu disse quase todos, porque o urânio não seguiu esse comportamento, e viu seu preço disparar de US$23/lb para US$34/lb. Muita gente está falando do ouro, da prata e do minério de ferro, mas o urânio é o metal com a melhor rentabilidade em 2020. As ações das mineradoras, que caíram em março, tiveram um segundo trimestre fantástico e agora, no terceiro trimestre, já estão com rentabilidades altíssimas – e acredito que isso seja apenas o começo. Hoje está na moda falar da Amazon e da sua rentabilidade – que é expressiva, por sinal. Se imaginarmos que alguém comprou as ações da empresa no final da década de 90 e as segurou até ontem, a rentabilidade anualizada obtida foi de 31%, ou seja, 50% a mais do que Warren Buffett, considerado o maior investidor de todos os tempos, conseguiu com a Berkshire Hathaway. Realmente uma proeza.  No entanto, ao olharmos para o último bull market em urânio, de 2003 a 2008, e analisarmos a pior rentabilidade entre as empresas do setor, que foi a da Cameco, ficaremos surpresos. As ações da mineradora canadense subiram o equivalente a 83% ao ano, ou quase 3x a rentabilidade de quem comprou Amazon há pouco mais de 20 anos. Se, em vez disso, fizéssemos uma comparação com as ações da Paladin, por exemplo, cuja rentabilidade anualizada foi superior a 450%, vemos que o urânio realmente merece ser estudado.   Sob o ponto de vista de gestão de portfólios, o investimento em urânio pode diminuir a volatilidade e aumentar os retornos da carteira. Lembrando que a hora de se investir em uma commodity é quando os preços ainda estão baixos e ninguém está prestando atenção.  Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve...

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Esse pode ser nosso melhor momento

A história chinesa é impressionante e chama a atenção pelos altos e baixos há mais de mil anos. Não vou me ater à tecnologia, ciência, medicina e astronomia, mas uma área em especial merece atenção: a navegação. Pouca gente sabe, mas muito antes dos europeus começarem a exploração marítima do mundo, os chineses já dominavam a construção de navios enormes, com capacidade para transportar até mil pessoas. 100 anos antes de os portugueses começarem a colonização do Brasil, os chineses já comercializavam com outras partes da Ásia, já haviam trazido uma girafa da África para Beijing e chegaram bem perto da Austrália. Para colocar em perspectiva a grandeza do império chinês à época, quando os portugueses tomaram um território da Índia em 1505, eles enviaram 20 navios e 2500 homens. Exatamente 100 anos antes disso, a China havia enviado sua primeira frota para a Índia, que consistia em 62 navios e 30 mil homens – e essa foi apenas uma expedição. O termo “Middle Kingdom” surgiu, porque os chineses acreditavam ser o centro do mundo, com nações a sua volta. Excesso de autoconfiança e conflitos internos bloquearam o avanço chinês pelo mundo. Mas podemos imaginar como seria o mundo hoje se houvesse um governante chinês com visão naquela época. Enfim, vários outros ciclos se passaram e chegamos à China comunista no final da década de 70. Olhando para o país, víamos um dos mais pobres do mundo, assolado pela fome e falta de desenvolvimento. Deng Xiaoping assumiu o controle e decidiu abrir um pouco a economia do país. Muitos empreendedores do ocidente, de olho na mão-de-obra barata e no enorme mercado consumidor, não titubearam em instalar lá suas fábricas. Com isso, a economia chinesa começou a crescer a taxas impressionantes, similares às do Brasil na década de 70. Com o crescimento da economia e lucros pujantes, muitos empresários resolveram fechar os olhos com relação às práticas do governo do país, marcado por falta de liberdade da população, inexistência de democracia, altas taxas de corrupção, poluição sem limites, hábitos diferentes do mundo ocidental, dentre outros. Hoje nos encontramos com um problema maior, um tipo novo de coronavírus, batizado de Covid-19. O mundo já teve que encarar a SARS, também oriunda da China, mas o Covid-19 está causando uma paralisação em todas as atividades mundiais, como comércio e indústria, com repercussões maléficas, não só na saúde pública, mas também na econômica. Não vou parar para discutir por que essas pandemias continuam a aparecer na China, mas já está na hora de o mundo ajustar seu comércio e começo a perceber um interesse crescente de vários empresários pelo mundo nesse tema. E essa pode ser uma excelente oportunidade para o Brasil ter um crescimento sustentável e robusto, depois de já ter perdido duas décadas com políticas furadas que beneficiaram uma meia-dúzia. O Brasil é um país com dimensões continentais, rico em solo, vegetação, petróleo e mineração. Temos uma democracia que de certa forma funciona, uma moeda negociada (quase que) livremente, um povo criativo e pacífico e um clima privilegiado. Rios mil e boa localização para portos, de onde podemos desenvolver ainda mais nosso comércio com os europeus, ingleses (agora fora da UE e buscando parceiros comerciais), os EUA e África – claro, sem se esquecer da própria América Latina e da Ásia. O país tem uma clara inclinação à agricultura e, com o crescimento populacional e maior demanda por alimentos no mundo, o Brasil pode sair à frente.  Incentivos fiscais e tributários para novas fábricas que se instalarem no país são primordiais, assim como mais investimento em infraestrutura para escoar a produção....

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Os bancos centrais e nossa liberdade

Há muitos anos, um famoso dono de zoológico ficou sabendo de uma nova gazela na África, que era bem rara em zoológicos por ser mais rápida e inteligente que as normais. Elas ficaram conhecidas como gazela de Thomson. O homem, ambicioso que era, decidiu que queria ter uma em seu empreendimento e partiu para a África. Chegando lá, foi informado de que era praticamente impossível capturar vivo um desses animais, porque não caiam em armadilhas, independente de quão sofisticadas fossem. Pois ele não se deu por vencido e decidiu seguir em frente com seu plano. Após apenas algumas semanas, o homem já tinha um rebanho dessas gazelas. Algumas foram vendidas e outras levadas para seu zoológico. Todos ficaram espantados com a eficácia dele em conseguir capturar esses animais, mas ele explicou. Após localizar um grupo, o homem foi lá à noite e espalhou bastante aveia. As gazelas vieram e comeram. Ele repetiu o mesmo procedimento por mais duas semanas. Após esse tempo, colocou um poste ao lado da aveia. Elas pareciam não se importar e vieram assim mesmo se alimentar. No dia seguinte, colocou outro poste e, ainda assim, os animais vieram ao banquete. E assim foi, sucessivamente, até que o local onde as gazelas comiam a aveia estava praticamente todo cercado, com apenas um espaço para que elas entrassem. No dia seguinte, as gazelas retornaram e entraram no cercado para comer a aveia. O homem, então, colocou o último poste fechou o portão, capturando uma manada inteira de uma vez. Dando um pequeno benefício aparente para as gazelas, elas foram, paulatinamente, entregando sua liberdade ao homem. Estamos vendo os mercados caindo esses dias, sofrendo com as repercussões do coronavírus, rebatizado Covid-19, e das paralisações de fábricas e do comércio mundial. E qual seria a cura para o vírus? De acordo com os bancos centrais e vários especialistas no setor, mais estímulo, seja via QE ou redução da taxa de juros, seja através de intervenções diretas no mercado. Muitos agentes de mercado estavam contando com essa ajuda logo no começo da semana. Como isso poderia combater o vírus eu ainda não sei, mas daria mais alegrias aos mercados, fazendo as ações dispararem novamente. A festa não pode acabar (spoiler alert: uma hora ela acaba). Voltando ao assunto dos bancos centrais, que estão imprimindo dinheiro e abaixando artificialmente o preço da moeda, a taxa de juros, não consigo parar de pensar no caso das gazelas, que foram cedendo sua liberdade em troca de comida fácil e pagaram um preço alto por isso.  Os bancos centrais imprimem dinheiro do nada e, com esse dinheiro, compram ativos financeiros, como ações e bonds, por exemplo, mantendo os preços inflados por um tempo. Pense na ilegalidade desse movimento: os controladores dos bancos centrais estão comprando ativos ligados a atividades operacionais na economia real sem custo algum! O banco central da Suíça, o Swiss National Bank, sobre o qual já escrevi aqui, hoje controla mais de US$100 bilhões em ações de empresas no mundo inteiro. Mas isso é o que sabemos, pois eles são obrigados a reportar para a SEC nos EUA, mas não para outros órgãos em outros países. Estou falando de Facebook, Amazon, Microsoft, Apple, Alphabet, Johnson & Johnson, Visa, Mastercard, Coca-Cola, Disney e várias outras companhias. Estamos nos tornando escravos dos bancos centrais e estamos felizes nesse processo, já que as ações estão subindo e estamos ficando um pouco mais ricos. Estamos trocando nossa liberdade por migalhas e ninguém parece se importar.  Daria até para pensar que mini-crises são fabricadas para que o mercado peça mais estímulos e mais impressão de dinheiro. Está...

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Como se preparar para um possível ajuste

Havia um time de futebol em Minas Gerais que estava indo muito bem. Ganhava títulos importantes e conseguia mais torcedores ano após ano. A confiança na equipe e nos dirigentes era muito grande e todos diziam que o time era “incaível”, um neologismo que fazia referência à impossibilidade de a equipe ser rebaixada à segunda divisão do campeonato nacional. E ninguém apostaria nisso, afinal, o time tinha acabado de ser bicampeão da Copa do Brasil e era um dos favoritos para ganhar o Campeonato Brasileiro de 2019 ou qualquer título que viesse a disputar no ano. Um verdadeiro case de sucesso. Como vocês podem imaginar, estou falando sobre o Cruzeiro. Em meados do ano passado foi revelada uma série de irregularidades em contratações, desvio de verbas, dívidas altas e até indícios de lavagem de dinheiro. Infelizmente para esse time, em que tudo ia de vento em popa, a confiança foi quebrada fazendo com que, do dia para a noite, todos perdessem a confiança na equipe e nos dirigentes. Após o escândalo, mais denúncias surgiram, descontentamento com técnicos, jogadores e vários outros problemas vieram à tona. O final da história já sabemos, mas as lições ficam. O mundo inteiro hoje está surfando uma onda de prosperidade, em que os bancos centrais estão mascarando os problemas por meio da impressão desenfreada de dinheiro. Há uma confiança incrível na capacidade dos banqueiros centrais de resgatar a economia e não deixar que um colapso aconteça. Impressão de dinheiro nunca funcionou na história da humanidade. Desde os tempos romanos, imperadores tentavam reduzir os valores das moedas misturando outros metais no lugar de ouro, prata e bronze. Ou seja, desvalorizavam a moeda, já que não era possível imprimi-la. Os efeitos imediatos eram quase sempre satisfatórios, mas uma conta absurda chegava logo mais à frente. Uma vez que a confiança no sistema era quebrada, a inflação aparecia rapidamente e as consequências eram desastrosas.  Os problemas que existiam no mundo no final do século passado ainda são os mesmos que estão aí hoje, só que menores. Na época do crash da internet, o Fed reduziu a taxa de juros para 1% a.a. por cerca de 2 anos, depois a aumentou aos poucos. Isso causou uma bolha ainda maior, a imobiliária. Para tentar resolver o problema da bolha imobiliária, o Fed abaixou a taxa para zero e a deixou lá por quase 10 anos. Além disso, ainda foram impressos trilhões de dólares por meio dos programas de QE e Operação Twist. Os problemas do mercado financeiro estão aí, para qualquer um que queira olhar possa enxergar. Mas hoje todos confiam na capacidade dos bancos centrais de postergar o inevitável. O problema é que a confiança é algo que se perde rapidamente e deixa efeitos catastróficos ao ser perdida. Qual seria a defesa contra um problema no mundo? Eu tenho um palpite: o ouro. O ouro era dinheiro há 3 mil anos, é dinheiro hoje e suspeito que continuará sendo por muito mais tempo. É um seguro que devolve o dinheiro investido no longo-prazo com correção. E a hora de se comprar um seguro é justamente quando a confiança está nas máximas e a situação não deveria inspirar segurança. No futebol, nas finanças e na vida, é importante saber que não há almoço grátis e excessos são corrigidos eventualmente. Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar. O autor detém e negocia...

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Carros elétricos são mesmo o futuro?

“Carros elétricos são o futuro”. Já ouvimos essa frase várias vezes e resolvi escrever esse artigo, não para contestar a frase, mas para mostrar os desafios na implementação dessa visão, como um convite à reflexão. O primeiro mito que devemos atacar é o de que veículos elétricos (EV) não poluem. Poderíamos discorrer sobre a poluição atribuível ao veículo no processo de produção da bateria, afinal os elementos que a constituem têm que ser minerados. Mas vamos pular essa parte e ir diretamente para o final, a fase de descarte. Uma bateria de carro elétrico pesa, em média, 250 kg. Agora imagine milhões delas contendo elementos altamente poluentes sendo descartados após o final da sua vida útil que é de, em média, 10 anos. Onde acharíamos espaço suficiente e adequado para descartá-las? Como as técnicas de reaproveitamento dos materiais contidos nelas ainda não estão desenvolvidas, resta a dúvida: aonde irão parar essas baterias usadas? Outro aspecto importante é que, se a fonte de energia que usamos para recarregar as baterias for poluente, ou seja,  se a eletricidade for gerada a partir da queima de petróleo,  gás ou carvão (de longe a maior fonte de energia mundial), a poluição causada pelos carros elétricos será muito maior do que a pelos movidos a diesel ou gasolina. A imagem abaixo, que uso nas apresentações que faço sobre energia nuclear, nos mostra um retrato do pensamento atual em contraste com a realidade. Outro ponto importante é a meia verdade que diz que o transporte é o maior emissor de CO2 do mundo. E isso é inegável, afinal a maior parte dos combustíveis fósseis são usados para esse fim. Contudo, quanto disso é realmente gerado primariamente por automóveis? Uma pequena parte. Sabemos que os 15 maiores navios do mundo poluem mais que toda a frota de carros do planeta, em termos de óxidos de enxofre e de nitrogênio. E os veículos também poluem muito menos que os aviões. Então, se estamos pensando seriamente em reduzir a emissão de poluentes, os veículos seriam o lugar ideal para começarmos? Parece aquela história de um cara quebrado, com uma enorme dívida no cartão de crédito, vivendo uma existência nababesca, que leu um livro de autoajuda e resolveu cortar o cafezinho no bar da esquina para economizar, enquanto disfruta um champanhe de R$1 mil no final de semana. E onde vamos conseguir os elementos para a produção de baterias? Hoje a República do Congo, que não é famosa pela segurança e estabilidade, é responsável pela produção de 60% do cobalto mundial. A Rússia vem em segundo lugar, mas bem atrás. Então o mundo toparia fazer a transição de fonte energética de petróleo, que conta com alguma diversificação em termos de países produtores, com os EUA, Arábia Saudita, Rússia e Canadá liderando, para uma fonte que deixaria todos à mercê de um país em constante conflito e com histórico inegável de guerras e problemas? Além do mais, alguém aí sabe como é feita a produção de cobalto nessas minas no Congo? Melhores práticas de ESG e combate ao trabalho infantil e à insalubridade definitivamente não parecem ser prioridade lá. Vamos imaginar, no entanto, que esses pequenos empecilhos que mencionei acima sejam apenas detalhes facilmente contornáveis. Qual teria que ser o investimento em infraestrutura e estações de recarga de baterias pelos países afora? Há ainda o inconveniente associado ao tempo que se levar para carregá-las – já imaginou a família inteira viajando e a bateria acaba? Assumindo que uma estação de recarga esteja próxima, nada como esperar entre 4 e 6 horas para continuar a viagem. Ah, o futuro! Quando o assunto é...

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