Os bancos centrais e nossa liberdade

Há muitos anos, um famoso dono de zoológico ficou sabendo de uma nova gazela na África, que era bem rara em zoológicos por ser mais rápida e inteligente que as normais. Elas ficaram conhecidas como gazela de Thomson. O homem, ambicioso que era, decidiu que queria ter uma em seu empreendimento e partiu para a África. Chegando lá, foi informado de que era praticamente impossível capturar vivo um desses animais, porque não caiam em armadilhas, independente de quão sofisticadas fossem. Pois ele não se deu por vencido e decidiu seguir em frente com seu plano. Após apenas algumas semanas, o homem já tinha um rebanho dessas gazelas. Algumas foram vendidas e outras levadas para seu zoológico. Todos ficaram espantados com a eficácia dele em conseguir capturar esses animais, mas ele explicou. Após localizar um grupo, o homem foi lá à noite e espalhou bastante aveia. As gazelas vieram e comeram. Ele repetiu o mesmo procedimento por mais duas semanas. Após esse tempo, colocou um poste ao lado da aveia. Elas pareciam não se importar e vieram assim mesmo se alimentar. No dia seguinte, colocou outro poste e, ainda assim, os animais vieram ao banquete. E assim foi, sucessivamente, até que o local onde as gazelas comiam a aveia estava praticamente todo cercado, com apenas um espaço para que elas entrassem. No dia seguinte, as gazelas retornaram e entraram no cercado para comer a aveia. O homem, então, colocou o último poste fechou o portão, capturando uma manada inteira de uma vez. Dando um pequeno benefício aparente para as gazelas, elas foram, paulatinamente, entregando sua liberdade ao homem. Estamos vendo os mercados caindo esses dias, sofrendo com as repercussões do coronavírus, rebatizado Covid-19, e das paralisações de fábricas e do comércio mundial. E qual seria a cura para o vírus? De acordo com os bancos centrais e vários especialistas no setor, mais estímulo, seja via QE ou redução da taxa de juros, seja através de intervenções diretas no mercado. Muitos agentes de mercado estavam contando com essa ajuda logo no começo da semana. Como isso poderia combater o vírus eu ainda não sei, mas daria mais alegrias aos mercados, fazendo as ações dispararem novamente. A festa não pode acabar (spoiler alert: uma hora ela acaba). Voltando ao assunto dos bancos centrais, que estão imprimindo dinheiro e abaixando artificialmente o preço da moeda, a taxa de juros, não consigo parar de pensar no caso das gazelas, que foram cedendo sua liberdade em troca de comida fácil e pagaram um preço alto por isso.  Os bancos centrais imprimem dinheiro do nada e, com esse dinheiro, compram ativos financeiros, como ações e bonds, por exemplo, mantendo os preços inflados por um tempo. Pense na ilegalidade desse movimento: os controladores dos bancos centrais estão comprando ativos ligados a atividades operacionais na economia real sem custo algum! O banco central da Suíça, o Swiss National Bank, sobre o qual já escrevi aqui, hoje controla mais de US$100 bilhões em ações de empresas no mundo inteiro. Mas isso é o que sabemos, pois eles são obrigados a reportar para a SEC nos EUA, mas não para outros órgãos em outros países. Estou falando de Facebook, Amazon, Microsoft, Apple, Alphabet, Johnson & Johnson, Visa, Mastercard, Coca-Cola, Disney e várias outras companhias. Estamos nos tornando escravos dos bancos centrais e estamos felizes nesse processo, já que as ações estão subindo e estamos ficando um pouco mais ricos. Estamos trocando nossa liberdade por migalhas e ninguém parece se importar.  Daria até para pensar que mini-crises são fabricadas para que o mercado peça mais estímulos e mais impressão de dinheiro. Está...

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Como se preparar para um possível ajuste

Havia um time de futebol em Minas Gerais que estava indo muito bem. Ganhava títulos importantes e conseguia mais torcedores ano após ano. A confiança na equipe e nos dirigentes era muito grande e todos diziam que o time era “incaível”, um neologismo que fazia referência à impossibilidade de a equipe ser rebaixada à segunda divisão do campeonato nacional. E ninguém apostaria nisso, afinal, o time tinha acabado de ser bicampeão da Copa do Brasil e era um dos favoritos para ganhar o Campeonato Brasileiro de 2019 ou qualquer título que viesse a disputar no ano. Um verdadeiro case de sucesso. Como vocês podem imaginar, estou falando sobre o Cruzeiro. Em meados do ano passado foi revelada uma série de irregularidades em contratações, desvio de verbas, dívidas altas e até indícios de lavagem de dinheiro. Infelizmente para esse time, em que tudo ia de vento em popa, a confiança foi quebrada fazendo com que, do dia para a noite, todos perdessem a confiança na equipe e nos dirigentes. Após o escândalo, mais denúncias surgiram, descontentamento com técnicos, jogadores e vários outros problemas vieram à tona. O final da história já sabemos, mas as lições ficam. O mundo inteiro hoje está surfando uma onda de prosperidade, em que os bancos centrais estão mascarando os problemas por meio da impressão desenfreada de dinheiro. Há uma confiança incrível na capacidade dos banqueiros centrais de resgatar a economia e não deixar que um colapso aconteça. Impressão de dinheiro nunca funcionou na história da humanidade. Desde os tempos romanos, imperadores tentavam reduzir os valores das moedas misturando outros metais no lugar de ouro, prata e bronze. Ou seja, desvalorizavam a moeda, já que não era possível imprimi-la. Os efeitos imediatos eram quase sempre satisfatórios, mas uma conta absurda chegava logo mais à frente. Uma vez que a confiança no sistema era quebrada, a inflação aparecia rapidamente e as consequências eram desastrosas.  Os problemas que existiam no mundo no final do século passado ainda são os mesmos que estão aí hoje, só que menores. Na época do crash da internet, o Fed reduziu a taxa de juros para 1% a.a. por cerca de 2 anos, depois a aumentou aos poucos. Isso causou uma bolha ainda maior, a imobiliária. Para tentar resolver o problema da bolha imobiliária, o Fed abaixou a taxa para zero e a deixou lá por quase 10 anos. Além disso, ainda foram impressos trilhões de dólares por meio dos programas de QE e Operação Twist. Os problemas do mercado financeiro estão aí, para qualquer um que queira olhar possa enxergar. Mas hoje todos confiam na capacidade dos bancos centrais de postergar o inevitável. O problema é que a confiança é algo que se perde rapidamente e deixa efeitos catastróficos ao ser perdida. Qual seria a defesa contra um problema no mundo? Eu tenho um palpite: o ouro. O ouro era dinheiro há 3 mil anos, é dinheiro hoje e suspeito que continuará sendo por muito mais tempo. É um seguro que devolve o dinheiro investido no longo-prazo com correção. E a hora de se comprar um seguro é justamente quando a confiança está nas máximas e a situação não deveria inspirar segurança. No futebol, nas finanças e na vida, é importante saber que não há almoço grátis e excessos são corrigidos eventualmente. Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar. O autor detém e negocia...

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Carros elétricos são mesmo o futuro?

“Carros elétricos são o futuro”. Já ouvimos essa frase várias vezes e resolvi escrever esse artigo, não para contestar a frase, mas para mostrar os desafios na implementação dessa visão, como um convite à reflexão. O primeiro mito que devemos atacar é o de que veículos elétricos (EV) não poluem. Poderíamos discorrer sobre a poluição atribuível ao veículo no processo de produção da bateria, afinal os elementos que a constituem têm que ser minerados. Mas vamos pular essa parte e ir diretamente para o final, a fase de descarte. Uma bateria de carro elétrico pesa, em média, 250 kg. Agora imagine milhões delas contendo elementos altamente poluentes sendo descartados após o final da sua vida útil que é de, em média, 10 anos. Onde acharíamos espaço suficiente e adequado para descartá-las? Como as técnicas de reaproveitamento dos materiais contidos nelas ainda não estão desenvolvidas, resta a dúvida: aonde irão parar essas baterias usadas? Outro aspecto importante é que, se a fonte de energia que usamos para recarregar as baterias for poluente, ou seja,  se a eletricidade for gerada a partir da queima de petróleo,  gás ou carvão (de longe a maior fonte de energia mundial), a poluição causada pelos carros elétricos será muito maior do que a pelos movidos a diesel ou gasolina. A imagem abaixo, que uso nas apresentações que faço sobre energia nuclear, nos mostra um retrato do pensamento atual em contraste com a realidade. Outro ponto importante é a meia verdade que diz que o transporte é o maior emissor de CO2 do mundo. E isso é inegável, afinal a maior parte dos combustíveis fósseis são usados para esse fim. Contudo, quanto disso é realmente gerado primariamente por automóveis? Uma pequena parte. Sabemos que os 15 maiores navios do mundo poluem mais que toda a frota de carros do planeta, em termos de óxidos de enxofre e de nitrogênio. E os veículos também poluem muito menos que os aviões. Então, se estamos pensando seriamente em reduzir a emissão de poluentes, os veículos seriam o lugar ideal para começarmos? Parece aquela história de um cara quebrado, com uma enorme dívida no cartão de crédito, vivendo uma existência nababesca, que leu um livro de autoajuda e resolveu cortar o cafezinho no bar da esquina para economizar, enquanto disfruta um champanhe de R$1 mil no final de semana. E onde vamos conseguir os elementos para a produção de baterias? Hoje a República do Congo, que não é famosa pela segurança e estabilidade, é responsável pela produção de 60% do cobalto mundial. A Rússia vem em segundo lugar, mas bem atrás. Então o mundo toparia fazer a transição de fonte energética de petróleo, que conta com alguma diversificação em termos de países produtores, com os EUA, Arábia Saudita, Rússia e Canadá liderando, para uma fonte que deixaria todos à mercê de um país em constante conflito e com histórico inegável de guerras e problemas? Além do mais, alguém aí sabe como é feita a produção de cobalto nessas minas no Congo? Melhores práticas de ESG e combate ao trabalho infantil e à insalubridade definitivamente não parecem ser prioridade lá. Vamos imaginar, no entanto, que esses pequenos empecilhos que mencionei acima sejam apenas detalhes facilmente contornáveis. Qual teria que ser o investimento em infraestrutura e estações de recarga de baterias pelos países afora? Há ainda o inconveniente associado ao tempo que se levar para carregá-las – já imaginou a família inteira viajando e a bateria acaba? Assumindo que uma estação de recarga esteja próxima, nada como esperar entre 4 e 6 horas para continuar a viagem. Ah, o futuro! Quando o assunto é...

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Howard Marks e o urânio

Semana passada fomos presenteados com mais um memorando de Howard Marks, fundador da Oaktree Capital e um dos investidores mais famosos e bem-sucedidos do mercado. Isso só já é dizer muito – como salienta Ray Dalio, vencer no mercado financeiro é mais difícil que vencer nas Olimpíadas. De volta ao memorando intitulado “You Bet” (Pode apostar), Marks fala sobre a similaridade entre jogos, apostas e o mercado financeiro. Ele cita alguns livros que o marcaram e algumas passagens interessantes dos mesmos, como “uma aposta é simplesmente uma decisão sobre um futuro incerto” ou “há exatamente duas coisas que determinam como sua vida será: a qualidade das decisões que você toma e a sorte”. Baseado nisso, Marks nos lembra que às vezes, decisões erradas podem ser bem-sucedidas, graças à sorte – e o contrário também se aplica, ou seja, decisões inteligentes que dão muito errado por falta de sorte. No longo-prazo, a pessoa com melhor processo e julgamento tem grandes chances de vencer, já que esses se sobreporão à sorte. Ele nos dá algumas dicas para saber quais são as chances de um participante realmente vencer nesse mercado. Para isso, é necessário saber quão boa são as posições atuais, quantas maneiras diferentes há de se ganhar ou perder e, finalmente, quão dependente da sorte é o portfólio. O jogo aqui não é ter certeza de nada, já que é algo impossível, mas sim melhorar substancialmente as chances de ganhos. A pergunta final é simplesmente: quem é o favorito? Obviamente, todos preferem apostar no favorito, mas aí entra a genialidade de Marks, e um pouco de Munger, dizendo que às vezes é mais interessante apostar na pior posição, desde que o resultado final seja generoso o bastante para torná-la atrativa. Baseado nisso, Marks chega à sua conclusão de que para se ter sucesso no mercado financeiro não é necessário comprar o melhor, mas comprar pelo melhor preço. Se uma pessoa fizer isso repetidas vezes, é impossível não se dar bem. O que nos traz novamente ao tema do urânio, que é a maior oportunidade de investimento que já vi na minha vida. Ela é segura? É 100% certo que vou ganhar dinheiro com ela? Claramente a resposta para as duas perguntas é não, porém estou investindo em uma commodity cuja demanda está crescendo, a produção está caindo, não tem substituo, o comprador final é praticamente indiferente ao preço e o preço de venda está muito abaixo do custo de produção. Tudo isso significa para mim que as chances de o preço subir são muito altas.  Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar. O autor detém e negocia ativos ligados ao tema abordado em sua carteira proprietária e/ou na de clientes sob sua gestão...

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Transporte Marítimo

O setor de transporte marítimo é complicado, para dizer o mínimo. Problemas com a governança corporativa e ciclos bem pronunciados não ajudam a melhorar o estigma da indústria naval. É um setor largado, com poucos analistas o seguindo, e que entrou no décimo primeiro ano de bear market. E é por isso mesmo que estou interessado. Primeiro, várias empresas no setor estão sendo negociadas abaixo do NAV (valor líquido dos ativos), o que diminui o risco. É o clássico comprar $1 por $0,50. Como já falei várias vezes, não entendo o risco como volatilidade, que embora seja uma medida estatística adotada amplamente para modelagem matemática de risco, no fundo significa muito pouco. Risco no seu sentido mais puro e original, e o que levo em consideração, é a chance de se perder dinheiro no longo-prazo. E, se vamos comprar algo muito abaixo do seu custo de produção ou de construção, a chance de se perder dinheiro diminui bastante. Segundo, as charter rates,que são os valores das diárias de frete,estão nas máximas dos últimos 7 anos e ninguém está prestando atenção. Empresas do transporte marítimo têm uma alavancagem operacional gigante e, em cima dela, uma alavancagem financeira. Até o ano passado, várias dessas empresas não conseguiam gerar caixa para pagar os custos operacionais – hoje, estão jorrando dinheiro por todos os lados (perdão pelo trocadilho) e as discussões nas conferências trimestrais de resultado giram em torno da definição do que fazer com o dinheiro (dividendos, recompras, crescimento e afins). Onze anos de bear market fizeram com que várias empresas desaparecessem ou diluíssem seus acionistas, com emissões de ações a preços e condições desvantajosos, para dizer o mínimo. Com isso, vários bancos perderam rios de dinheiro emprestando para o setor e resolveram fechar as torneiras do crédito. Isso fez com que o número de ordens de novos navios caísse para o menor nível dos últimos 20 anos – e esse é, na minha opinião, o principal fator que define as charter rates. Além disso, para adocicar ainda mais os investimentos, a IMO (International Maritime Organization), um braço da ONU que regula o mercado de transporte marítimo, anunciou uma nova regulamentação, conhecida como IMO-2020, que entrará em vigor em janeiro do próximo ano, ou seja, em menos de 2 meses. A nova regulamentação, sobre a qual já escrevi algumas vezes no blog da L2 Capital, obriga que os navios diminuam as emissões de enxofre de 3,5% para 0,5%, o que trará impactos gigantescos para o setor – e, mais uma vez, ninguém está prestando atenção. Não entrarei em detalhes sobre os potenciais resultados, como já o fiz algumas vezes, mas vários navios virarão sucata porque não se adaptarão a tempo, outros não conseguirão o combustível ideal e problemas nas rotas começarão a aparecer (guerra comercial, sanções, etc) o que, juntamente com o menor índice de ordens de compra de novos navios, reduz o número de embarcações na água. Ou seja, mesmo que a demanda continue a mesma, a oferta será reduzida, aumentando ainda mais as charter rates. Com a alavancagem operacional e financeira que essas empresas possuem, podemos ver resultados realmente fora de série no próximo ano. Algumas empresas talvez conseguirão produzir um fluxo de caixa maior do que seu próprio valor de mercado. Estou sempre atento às oportunidades e, além do urânio, que é, na minha opinião, o melhor investimento que já vi, o setor de transporte marítimo e de exploração de petróleo apresentam várias oportunidades. Cabe a nós aproveitá-las. Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão...

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