Netflix e urânio

As ações da Netflix subiram bastante há dois dias, após o fechamento do mercado, quando a empresa divulgou seus resultados referentes ao terceiro trimestre. Elas chegaram a subir 14% no after market, mas a alta não se sustentou no dia seguinte e as ações fecharam em alta de “apenas” 5%. Ontem as ações caíram 4,5%, devolvendo os ganhos do dia anterior e hoje elas já caem mais de 3%.

A empolgação com os números da Netflix veio por causa do único número que importa no momento para seus investidores: o crescimento do número de assinantes! O crescimento foi realmente impressionante. No total, a empresa já tem 137 milhões de assinantes no mundo e ainda há espaço para manter uma alta taxa de crescimento pelos próximos trimestres. Entretanto ninguém quis olhar o custo de se crescer de forma tão vigorosa.

A empresa já queimou quase US$2 bilhões em caixa esse ano e a dívida, que era de US$6,5 bilhões no final do ano passado, saltou para US$8,3 bilhões. Isso sem contar com os quase US$20 bilhões que a empresa tem já contratado como conteúdo para seu serviço de streaming para os próximos anos. Diante desses números, eu imagino que os preços dos serviços da Netflix terão obrigatoriamente que subir – e o quanto antes, melhor, diga-se de passagem.

Mais ainda, a empresa vai ter competição forte a partir de agora, com novos entrantes e velhos concorrentes ameaçando a continuidade do crescimento até então observado. Estou falando de empresas como Google, Facebook, Disney e Amazon, ou seja, empresas com bastante caixa e uma base de clientes já existente muito maior.

Por outro lado, temos várias mineradoras de urânio – que é um metal essencial na produção de energia elétrica barata, sustentável e não-poluente – que não conseguem dar lucro, porque o preço do metal está muito abaixo do custo de produção.

Para se ter uma ideia, o custo total de produção de uma libra de urânio é de cerca de US$60, mas a commodity está sendo negociada a pouco mais de US$27, ou seja, os produtores perdem mais de US$30 por libra produzida. A situação é claramente insustentável!

Então, o que não pode continuar para sempre, tende a parar. As mineradoras de urânio estão fechando minas, diminuindo a produção e cortando custos. O problema é que a demanda só aumenta e o número de reatores nucleares cresce todo ano. Temos um clássico ambiente de redução na oferta e aumento na demanda. Não é necessário ser um gênio para saber o que vai acontecer com o preço do urânio e, consequentemente, com o valor das mineradoras: eles vão ter que subir – e muito, na minha opinião.

A Netflix e as mineradoras de urânio têm algo em comum e algo que as opõe. A parte em comum é que ambas terão que subir os preços do que vendem para poder se ajustar à realidade. Elas se opõe quando o assunto é valuation. Uma empresa (Netflix) está sendo negociada a múltiplos estratosféricos, quase que precificando a perfeição – e sabemos que ela nunca acontece. As mineradoras, por outro lado, estão sendo negociadas como se fossem desaparecer do mercado amanhã.

A relação risco x retorno do investimento é outro aspecto que as distingue. Assim é o mercado, todos correm para comprar a empresa mais cara, com menor potencial de alta e, consequentemente, maior risco, enquanto o investimento mais óbvio fica largado, esquecido, até o dia em que se torna muito tarde. Estamos investindo em urânio enquanto ninguém está prestando atenção e algumas ações no setor já sobem mais de 100% esse ano – e isso é apenas o começo, na minha opinião. A hora de se posicionar é agora, não quando o call for óbvio e a tese ocupar as manchetes da grande mídia.

Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar.

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