O que fazer agora?

Ninguém gosta de ser o “Profeta do Apocalipse”, o estraga-prazeres, mas sem dúvida a situação mundial merece cautela.

A lista de bilionários que preveem uma queda acentuada nos mercados acionários continua aumentando e eles merecem ser ouvidos. Estamos falando de grandes nomes, como Bill Gross, Jeffrey Gundlach (o atual rei dos bonds), Carl Icahn, etc.

Ainda estamos tentando achar uma métrica, segundo a qual os mercados acionários não pareçam estar superavaliados, mas ainda não logramos sucesso.

Um dos índices mais interessantes de se acompanhar é o Índice PE de Shiller, que ajusta o indicador Preço/Lucro aos ciclos econômicos. Hoje ele se encontra acima de 30, quase o dobro da média, que é 16,8, algo que só ocorreu duas vezes na história, em 1929 e em 2000, ambas no auge das respectivas bolhas.

shiller pe

E isso ainda é pouco, em nossa opinião. Com as baixas taxas de juros nos EUA por quase dez anos, as empresas emitiram dívida a um custo muito baixo e utilizaram os recursos para comprar suas próprias ações, aumentando os lucros por ação e, consequentemente, reduzindo os indicadores de Preço/Lucro.

Obviamente, isso terá um custo enorme no futuro. Em vez de aproveitarem o dinheiro barato para investir em produtividade, diferencial competitivo, novas máquinas e equipamentos, etc, as empresas o usaram para aumentar artificialmente os preços de suas ações e, claro, pagar gordos bônus aos seus executivos. Um clássico exemplo de conflito de agência.

Com a alta nas taxas de juros, esse custo de dívida começa a aumentar, atingindo os lucros em cheio, ao mesmo tempo em que diminui o apetite das empresas por buybacks (recompra de ações). Vale lembrar que os maiores compradores de ações nos últimos anos foram as próprias empresas e uma vez fora do mercado, haverá pouco espaço para um re-rating das ações.

Agora imagine o cenário inverso: as empresas com dívida alta e sem recursos em caixa, vendendo ações, juntamente com todos os outros investidores,  para poder honrar o serviço dessas dívidas. O cenário não é benigno.

Vale lembrar que no crash de 2000 não houve um trigger, não houve um evento-chave, simplesmente o último comprador disponível entrou no mercado e não houve outra pessoa para continuar sustentando os preços. De repente o mercado caiu 10%, depois 20% e, pouco tempo depois, o Nasdaq já havia caído quase 80%.

E os sinais da bolha estão por todas as partes: a Argentina, país que pediu moratória 5 vezes no último século, a mais recente em 2014, emitiu há pouco tempo quase US$3 bilhões em dívida de 100 anos com taxa de juros de 8% ao ano. O VIX, índice que mede o “medo” do mercado, está bem próximo à mínima histórica atingida há poucas semanas, de 8,84 – vale lembrar que ele estava acima de 80 durante a última crise. A Tesla, empresa que consegue ter prejuízos bilionários todo ano, emitiu semana passada US$1,8 bilhão (20% a mais que o inicialmente pensado, devido à enorme demanda) em bonds pagando menos de 6% ao ano. O Netflix, outra empresa que só queima caixa, também captou recursos recentemente no mercado com yields ainda mais baixos, de apenas 3,.625%.

Como se não bastasse, ainda temos um pouco de emoção pela frente. Ameaça de guerra com a Coreia do Norte; instabilidade na administração Trump; dívidas no mundo inteiro estão atingindo máximas históricas, ao mesmo tempo em que os juros começam a subir; os bancos europeus estão no limite da solvência, com o Deutsche Bank representando o maior risco ao setor financeiro mundial,  enquanto os bancos espanhóis e italianos estão com sérios problemas; a Grécia precisará de um novo programa de ajuda e o governo americano deve chegar ao limite da dívida em algumas semanas e precisará elevar o teto mais uma vez, o que trará mais um desafio para Trump.

Aliado a tudo isso, conflitos no Oriente Médio, Síria, Mar do Sudeste da China e Ucrânia apimentam o noticiário, ao mesmo tempo em que bolhas no mercado imobiliário pipocam pela Austrália e Canadá. Por fim, um investimento que vem performando bem melhor que vários fundos, os chamados investimentos passivos em ETFs, estão em um momento bem preocupante.  Vamos falar das ETFs em um outro post, mas é um risco que poucos estão considerando como deveriam.

Estamos em um dos mais longos bull markets da história, com o S&P subindo da mínima de 666 pontos em 2009 para 2.473 hoje – praticamente 8 anos ininterruptos de alta. E os investidores só conseguem ver o mesmo daqui pra frente. E é aí que mora o perigo.

Estamos tirando o pé do acelerador agora. Como fiduciários, temos obrigação de cuidar dos recursos nos nossos clientes da melhor maneira possível. E achamos que agora não é hora de correr riscos desnecessários.

Liquidamos as posições em bonds de longuíssimo prazo (10 anos para cima) e estamos nos preparando com pequenas posições em puts (opções de venda) de empresas que julgamos estar sobrevalorizadas.

Não estamos prevendo um crash nos mercados, mas achamos prudente reduzir a exposição a ativos de risco no momento. É melhor abandonar a mesa muito cedo do que muito tarde. Ou, como sabemos, é melhor sair anos antes do crash acontecer do que 1 minuto depois.

Um Comentário

  1. Wellington says:

    Realmente a dívida mundial e enorme, uma situação assustadora pra todos!

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