Tesla e a teoria da conspiração

No final de setembro, Elon Musk, o excêntrico CEO da Tesla, aceitou o segundo acordo proposto pela SEC, um pouco mais punitivo que o primeiro, para encerrar o caso de manipulação de mercado.

Segundo esse acordo, Musk não poderia ser mais o presidente do Conselho da Tesla (embora continuasse como CEO), teria que incluir mais membros independentes no Conselho da empresa e teria que ter seus tweets monitorados – além, é claro, de pagar uma multa irrisória de US$40 milhões (US$20 milhões para a Tesla e US$20 milhões para Musk).

Muitos investidores sérios ficaram chateados com o acordo, dizendo que a SEC foi extremamente benevolente com Musk, afinal, um caso tão óbvio de manipulação de mercado é crime e vários executivos num passado recente foram punidos severamente por isso.

Levantou-se até a bandeira do 1%, dizendo que a lei é realmente diferente para os super-ricos, e vários comentários afirmando que se existe uma fraude em uma empresa com valor de mercado de US$100 milhões, o CEO vai pra cadeia. Se existe uma fraude numa empresa de US$50 bilhões, o CEO recebe uma multa simbólica.

Mas os acontecimentos não pararam por aí. Poucas horas depois, Musk, não resistindo à sua índole, tweetou um rap chamado OPP – para os entendedores, esse tweet pode ter sido uma referência a Operating Profit Positive, uma das promessas dele para esse trimestre.

Na minha opinião, a SEC não quis remover Musk da empresa porque senão a Tesla iria quebrar mais rapidamente. Não que ela não vá quebrar por si só, mas a SEC não queria ser acusada de ter sido responsável por essa bancarrota. E isso certamente seria atribuído a ela. Então ela fez o seguinte: tirou Musk da presidência do Conselho da empresa e restringiu o uso do Twitter por ele. Além disso, deixou-o como CEO da empresa.

Ora, sabemos bem que Musk é um excelente promoter para suas ações, mas um péssimo CEO. Ele simplesmente não consegue entregar resultados, mas está sempre inventando coisas novas para manter o mercado interessado em suas (caras) ações. O que a SEC fez foi restringir o poder dele de ser promoter da empresa e deixou-o continuar como CEO, fazendo o que ele faz bem: caminhar em direção ao abismo. O acordo, embora parecesse como um benefício à Musk, foi na verdade bem pensando e executado.

Já na semana passada, Musk voltou ao tweet para criticar a SEC, chamando-a de Shortseller Enrichment Commission (Comissão de Enriquecimento dos Vendedores a Descoberto). Incrível que pouco tempo depois de se safar de uma punição exemplar, Musk volta a atacar a SEC, após o acordo que ele havia feito.

Eu venho seguindo Elon Musk há alguns anos e tenho um bom conhecimento da sua empresa, a Tesla. Posso falar várias coisas dele, mas não posso dizer que ele não é inteligente. Apesar de parecer extrema burrice fazer o que ele acabou de fazer, eu tenho uma teoria diferente.

Na minha opinião, Musk sabe melhor do que qualquer um dos problemas que a empresa enfrenta (queda absurda na demanda, defeitos de fabricação em vários veículos, falta de assistência técnica, competição acirrada a partir de agora, alta dívida, constante saída de vários executivos-chave da empresa, etc.) e ele não quer ficar lá para ver o barco afundar. E ele sabe bem que o barco vai afundar. Afinal, se (ou melhor, quando) ele quebrar a Tesla, sua fama de visionário ficará maculada – foi exatamente por isso que ele teve que incorporar a Solar City à Tesla. Então o ideal seria pular fora do barco nesse momento e deixa-lo afundar, para depois buscar algum culpado por isso – provavelmente a SEC por não deixa-lo continuar na empresa.

Musk está fazendo de tudo para poder ser expulso da empresa e conseguir salvar sua fama de visionário. Essa é a única explicação plausível que eu consigo encontrar para tamanho desprezo pelas leis e regras de mercado. Acho que a Tesla pode maquiar o balanço um bocado nesse trimestre, mas o problema vai aparecer no próximo, quando todos descobrirem que, além de todos os problemas que eu já mencionei nesse blog, a demanda pelos veículos está evaporando…

Trade carefully.

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